Verificamos que nos últimos trinta anos a família passou por alterações significativas, não se tem mais a idéia dos pais como senhores dos destinos dos filhos. As conseqüências disso não são necessariamente ruins, como nos diz o psicanalista Jean-Pierre Lebrun “ O que vale é a capacidade dos pais de fazer os filhos crescer. Esse é o bom ambiente familiar , independente do desenho que a família tenha”. Hoje nos deparamos com muitas dificuldades dos pais de controlar os filhos, pois existe uma perda da legitimidade, pois a organização social funciona como uma rede e não mais como uma pirâmide e na rede não existe mais esse lugar que era reconhecido espontaneamente como tal e que conferia autoridade aos pais. As dificuldades para impor limites se acentuaram, causando apreensão na maioria dos pais. Nota-se que os pais estão muito preocupados que seus filhos não sigam por caminhos errados, mas para que isso não aconteça precisamos ensiná-los a falhar, pois todos um dia vão falhar, não há como ser diferente, afinal somos seres humanos. Mas quando os pais, a família e a sociedade falam o tempo todo que é necessário conseguir, conseguir, conseguir, massacram os filhos. Precisamos ensiná-los a lidar com o fracasso porque desta forma evita que ele se torne algo destrutível. Os pais sabem que as crianças não ficarão com eles a vida inteira, que não vão conseguir tudo que sonharam, que vão estabelecer ligações sociais e afetivas que, por vezes, lhe farão mal, mas tentam agir como se não soubessem disso. Hoje os filhos se tornaram um indicador do sucesso dos pais e isso é muito perigoso, pois cada um tem sua vida, não é justo que além de carregarem o peso das próprias dificuldades, os filhos também tenham de suportar a angústia de falhar em relação à expectativa depositada neles. Podemos citar um exemplo claro das mudanças da família nos dias de hoje, pois quando um professor dá uma nota baixa a um aluno, é certo (ou acredita-se)que os pais vão aparecer na escola para reclamar com ele, há vinte ou trinta anos atrás, era o aluno que tinha de se explicar com os pais diante do professor, é uma completa inversão. Hoje os pais precisam discutir tudo, negociar o que antes eram ordens definitivas, e isso não é necessariamente algo negativo, desde que fique claro que depois de negociar, discutir, trocar idéias, quem decide são os pais.
Texto adaptado Revista Veja Dezembro 2009
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